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Vilões no Trânsito


MOTOCICLISTAS NÃO SÃO ÚNICOS VILÕES DO TRÂNSITO


Pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas e Abraciclo

com envolvidos em acidentes atribui o mesmo índice de culpa para motos e carros.

O trânsito é sempre um assunto polêmico. E, muitas vezes, encontra na figura do motociclista o culpado pela quantidade de acidentes que ocorrem nas vias da cidade. Até agora. De acordo com a pesquisa “Causas de Acidentes com Motociclistas”, feita pelo Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São (FMUSP) a pedido da Abraciclo, associação brasileira do segmento de duas rodas, motociclistas e motoristas têm a mesma parcela de responsabilidade (ou de culpa) nos acidentes analisados.

A pesquisa, que utilizou a Zona Oeste de São Paulo como amostra, coletou dados de acidentes viários envolvendo motocicletas que aconteceram entre os meses de fevereiro e maio deste ano. “O mais surpreendente foi a participação igualitária entre motociclistas e motoristas nos acidentes”, comenta Osvaldo Negrini Neto, perito criminal aposentado e Professor de Física da Academia de Polícia de São Paulo, que colaborou com o estudo da Abraciclo.

Faixa pintada fica escorregadia e pode causar acidentes

No levantamento, de acordo com o quesito “Culpabilidade Agregada”, são quatro os fatores que dividem a responsabilidade nas casualidades que envolvem os motociclistas. Nele, carros e motos aparecem com 37% de culpa nas colisões, cada um, enquanto problemas com veículos totalizam apenas 8% e – talvez este seja o dado mais alarmante – 18% da culpa nos acidentes de trânsito se devem às condições da via. “Às vezes a sinalização de PARE, por exemplo, não está legível no chão ou um motociclista acaba se envolvendo em um acidente para desviar de um buraco. Nesses casos, se atribui culpa também à via”, explica o perito.

O perigo mora abaixo


No entanto, não são apenas buracos ou placas ilegíveis que podem causar acidentes com motociclistas. “São várias situações. As mais comuns são bueiros destampados ou com a tampa fora do nível da rua, valetas e até tartarugas e tachões colocados de maneira irregular”, comenta Luiz Artur Cané, presidente do Movimento Brasileiro de Motociclistas e membro do Observatório Nacional de Segurança Viária.

Óleo na pista: perigo na via

Problemas na manutenção das vias também podem se tornar verdadeiras armadilhas para motociclistas, como foi presenciado pelo próprio Cané. Segundo ele, para ampliar uma faixa da pista, a linha de demarcação foi coberta com tinta. “O correto ao se eliminar uma linha de demarcação na via é fazer uma fresagem, tipo de raspagem no pavimento, pois a tinta aplicada é escorregadia”, afirma, completando que outros fatores como pista molhada podem resultar em tragédia. “Se o motociclista passar em uma faixa dessas com o asfalto molhado, tem que contar com a sorte”.

Para o perito Osvaldo Negrini, a prática de literalmente pintar as vias é uma questão de custo. “Já conversei com responsáveis pela manutenção de vias e me disseram que o custo de raspar a faixa é oito vezes maior do que se paga para fazer a pintura”, comenta.

 

Motoboys e corredores


Outro dado polêmico da pesquisa é a baixa porcentagem de motofretistas envolvidos em acidentes. De acordo com os dados, a grande maioria dos acidentados (73%) utiliza a moto como meio de transporte, pilotando em média duas horas por dia, enquanto apenas 23% deles trabalham com ela e passam pelo menos oito horas do dia ao guidão. “Os motoboys estão mais cuidadosos para pilotar. Em função de sua experiência sobre duas rodas também são mais prevenidos”, diz Negrini.

Proibir o corredor não é visto como solução pelos especialistas

Já na parte do estudo que relata as condições de ocorrência do acidente, o alto índice de colisões laterais (48%) perto das traseiras e frontais (29%) e das transversais (23%) não surpreende. Porém, para quem acha que a proibição da circulação de motos entre as faixas, o chamado corredor, extinguiria a estatística de batidas laterais, o perito criminal discorda. “A pesquisa mostra que proibir o corredor só vai transferir as colisões para outra zona”, afirma, apontando que o índice de choques traseiros e frontais aumentaria.

Wilson Yasuda, coordenador da Comissão de Segurança Viária da Abraciclo, concorda com Negrini. Para ele, seria complicado e perigoso para o motociclista acompanhar os carros dessa forma. “Se um dia o corredor acabar, vamos ter mais problemas de colisão traseira e dianteira. O motociclista teria dificuldades em acompanhar o fluxo”, diz Yasuda.






 

Conscientizar é o caminho

Erradicar os acidentes de trânsito talvez seja utopia. Entretanto, os especialistas concordam que precisa haver adequação nas vias. “As vias não são planejadas para moto andar”, reflete o perito Osvaldo Negrini Neto, que também defende iniciativas como as moto-faixas e faixas de retenção como ideias cruciais para redução nos acidentes. “Elas ajudam a impedir a interceptação de trajetória das motos”.

Medidas como a motofaixa e as faixas de retenção são algumas das saídas

apontadas para diminuir os acidentes no trânsito

Para Wilson Yasuda, essas reformas também precisam ser divulgadas. “Precisa haver campanhas de conscientização para todos que utilizam a via. Faixas de retenção, por exemplo, não tem divulgação”, comenta Yasuda, se referindo ao desconhecimento da população sobre os “bolsões” que concentram os motociclistas na frente dos carros e dão prioridade nas saídas dos semáforos.

O coordenador da Comissão de Segurança Viária da Abraciclo vai além e defende mudanças também na forma como motoristas e motociclistas são preparados. “Ter um treinamento só para fazer um exame é muito ruim”, diz Yasuda. Segundo ele, aulas de moto realizadas em área externa com condições adversas de trânsito e redução de marcha seriam ideais. Hoje, as aulas práticas e exames para a habilitação na categoria “A” (para motocicletas) são conduzidos em circuito fechado e o motociclista não chega a engatar a segunda marcha. “Existe um conjunto de itens a serem levados em conta. Queremos incluí-los e fazer uma prova mais completa”, finaliza.


Gugu

José Otavio M de Araujo

 
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